Niculitcheff  2004

Aracy Amaral

São Paulo

fevereiro de 2004

 

 

Quando, em 1983, no MAC-USP, pedi a cada artista da exposição Pintura como Meio (Cozzolino, Leda, Romagnolo, Ana Tavares e Niculitcheff) que redigisse um breve depoimento sobre o próprio trabalho para o modesto catálogo que preparávamos, Sergio Niculitcheff, depois de citar Kandinsky, escreveu que "em arte, a menor distância entre dois pontos nem sempre é uma reta, pode ser uma parábola": Talvez a referência a um lugar geométrico, a parábola, possa ser associada à sobriedade cromática e de elementos que caracteriza até agora sua pintura. Mais certo, contudo, é que esta predileção pela geometria, pela precisão de formas, pelo desenho, sempre marcou seu trabalho, como se pode constatar nestes vinte anos de sua trajetória.

Ao longo do tempo, sempre me impressionou a solidão do artista plástico – similar à produção solitária do escritor, do compositor – trancado em seu ateliê, entregue em silêncio a seus trabalhos, ensimesmado em suas emoções, suas angústias, e prensado pela necessidade de expressão e pela materialidade do suporte que utiliza, materialidade que o impulsiona a levar a outros a produção terminada, posto que a obra somente adquire plena realização frente a seus apreciadores.

Não é sempre que a solidão aflora no resultado do trabalho artístico. Mas acontece, sim, no caso de Niculitcheff, quando ela se expressa de maneira muito eloqüente em suas figuras estáticas – tanto objetos da natureza como industrializados, referências do cotidiano – em suas hoje grandes telas de superfícies de uma visualidade que nos remete igualmente ao materismo ascético de um Daniel Senise (por certo deve haver aí uma empatia): a tinta diluída, mesmo no tratamento da figura principal, centralizada na composição, não raro suspensa, com um clima surrealisante em suas enigmáticas pinturas.

Nem todos os artistas que emergiram no início dos anos 80 permaneceram fieis à pintura (como é também o caso de Paulo Pasta, de Senise, de Rodrigo Andrade). Uma grande parte deles migrou para a instalação ou para o tridimensional – Romagnolo, Nuno Ramos, Ana Tavares, Leda Catunda, Zerbini e Paulo Monteiro, por exemplo.

Mas Niculitcheff se mantém na pintura. E, despreocupado de expressar de maneira contundente seu pensamento, o faz antes instigando o observador a partir de objetos focalizados. Como não confere títulos aos seus trabalhos, desloca a nossa atenção para o objeto representado/transportado em si e, assim, destaca o "clima" que o rodeia e que dele exala. Sempre centralizados, esses objetos-temas despertam nosso olhar pelo prosaico ou pela perplexidade que nos causa sua seleção: caçamba, cofre, apontador, bambu, mala, noz, tampa de caneta Bic, cubo, escada com nuvem, colchão, árvore de natal sob escada, mesa de snooker com uvas (ou bolas, ou mapa?), concha, crânios de baleia e de elefante. E, de repente, surge um busto oculto sob a bandeira paulista, indício claro desse gosto pelo "ocultamente" ao não revelar seu discurso com clareza por meio da imagem representada, mas antes, como num jogo, propor o encanto da decifração.

E, por outro lado, transparece uma tendência, digamos, ao neopop na presença distanciada de elementos do cotidiano urbano – ou privilegiando sujeitos clássicos dos artistas de todos os tempos, como o são certas formas geométricas por ele focalizadas, ou prismas, ou mesmo temas naturais, como conchas. A identificação das peças transfiguradas por Niculitcheff assinala sua difícil escolha de objetos, pois aí reside, evidentemente, a possibilidade geradora do estranhamento necessário, embora a dimensão e o tratamento das telas alimente o clima onírico que parece pairar sobre toda esta pintura. Maneirista, por certo, mas que busca distanciar-se da obviedade e buscar um caminho muito seu, em época de árdua dificuldade de individualismo nas artes visuais. Das mais intrigantes pinturas é, nessa linha, a da coroa que emerge da trama da tela, assim como a do ficus dócil, podado em forma cilíndrica.

Ao mesmo tempo, vemos a sutil diferença com que Niculitcheff varia o tratamento dos fundos nos últimos anos e, partindo do materismo, chega a uma insinuação de variações cromáticas ou tênues sombras sobre um plano não explicitado. Aliás, a atração pelo escultórico, na volumetria sempre bem patente, comparece igualmente na seleção das peças-objetos de sua pintura. Trabalhando com acrílico, a tinta diluída sobre cartão como sobre tela, o preparo da superfície a ser pintada é o primeiro estágio de uma lenta maturação visual. Em tons suaves, quase neutros, Niculitcheff se aplica à aplicação, como diz ele, de "ruídos", de interferências visuais como manchas, subtons, com efeito de monotipias sobre as quais será finalmente pintada a forma selecionada, sempre na gama dos ocres, de preferência cinzas, quase monocromáticos. Toda a série de 2000-2001, de 50 x 70 cm, de grande unidade, focalizará uma série prolífica de objetos os mais dispares (tampa de Bic, pneu, embalagem de foguete, poltrona, apontador de lápis, etc.). Em 2002, aparecem trabalhos de dimensão maior, porém nos quais esse mesmo materismo – "ruídos" – está presente tanto sobre o fundo como sobre o objeto pintado (cofre, tatu, ficus, tambor), o que confere estranhamento peculiar a estas pinturas, soturnas, quase como aparições fantasmagóricas. Esta pátina que recobre suas telas, como no caso do ficus e do cofre, remete-nos a outros objetos, como a peças naufragadas e resgatadas de um universo subaquático que as tivesse transfigurado.

A mudança de escala para superfícies mais amplas, em 2003, evidentemente demandaria um tratamento diferenciado para a pintura, que não perde, contudo, o clima metafisico de seu trabalho anterior. Isso está patente em particular na estranha paisagem de caprichosos recortes surrealisantes dos ciprestes da praça da pequena cidade de Monte Sião, inspiração que, sem dúvida, veio ao encontro da atmosfera envolvente do trabalho de Niculitcheff. Que dispensa a recorrência ao Ceci n'est pas une pipe, de Magritte, para que se perceba a fonte conceitual destas pinturas, objetos-pretextos desenvolvidos em contínuo e lento trabalho compulsivo.

 

 

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