fac-símile da primeira página do jornal A FONTE

EDITORIAL

Antes de mais nada: vida longa e produtiva a este insolente pasquim!1

Este é um texto de apresentação e, como tal, espera-se, por estabelecido costume, que simplesmente refira os autores e a obra (neste caso, um grupo de artistas em seu atelier, e o seu pequeno jornal) entretecendo algumas notas e elegantes reflexões sobre os seus currículos, ou sobre alguma virtude que o objeto em questão possa conter.

Os textos de apresentação de artistas e de suas obras, assim como os prólogos e os panegíricos fúnebres2, sempre apresentam uma estrutura comum, e obedecem a certos cânones de forma e de vocabulário rebuscado, que todos já conhecemos muito bem; mais que um estilo, são uma convenção, e se alguém precisar modificar a sua forma usual, correrá, em certos casos, o risco de ser mal interpretado. Mesmo assim, apesar de inusitada, eu ainda acredito mais simpática e honesta, a maneira como algumas pessoas, em Nova Orleans, entre músicos e melodias pungentes, acompanham os seus mortos ao último lugar, e depois se despedem deles, ao som da mesma banda de jazz, mas agora celebrando o espantoso fato de estarem vivas.

Na década de setenta, era moda supor que todas as pessoas fossem potencialmente criativas, e que bastava um momento oportuno, um ambiente propício, e circunstâncias adequadas para que a criatividade eclodisse aos borbotões, em jactos impetuosos e iluminados. As cidades, os museus, as ruas, foram invadidos por hordas de pessoas criativas, vanguardas suburbanas, escritores alternativos, performers produtivos, clowns sofisticados, artistas experimentais, atores-tradutores e, finalmente, na esteira dessa balbúrdia, no fim da festa, o fastio, e um certo pasmo, ou vaga decepção. Depois, veio a década da vulgarização das "releituras", os anos oitenta, e todos eram, outra vez, pelo menos potencialmente, vídeo-makers pós-modernos, artistas-multimídia, pintores neo-expressionistas et cœtera. O consumo de telas e tintas nunca foi tão grande; nunca o marchand e as galerias de arte tiveram agendas tão cheias e movimentadas; nunca se vendeu tanta arte e a preços tão elevados. A crítica, cautelosa e a salvo das suas responsabilidades, sem visão de conjunto, calou-se, e a produção de arte, e de novos artistas, livre e solta, grassou como nunca. Mas novamente o tédio, ou o desapontamento, sobrepujou a estranha e exagerada euforia, e os especialistas, timidamente, à distância, foram retomando o seu ofício de verificar e tentar ordenar as coisas: restou pouca arte, restaram uns poucos "artistas jovens", uns cinco, ou seis; os outros, ou sensatamente se retiraram, ou persistem, satisfeitos, em suas facilidades maneiristas, e aqueles aflitos que fugiram do pequeníssimo "mundo da arte" e foram, em êxodo, para o minúsculo "mundo mix".

Enfim, a Natureza realmente não é nada democrática e, como todos sabem, Arte não é feita de eventos, ou eventualidades: Arte é um fenômeno muito raro.

A década de noventa ainda encontrou aquele cenário de fatuidades, e tinha-se a impressão que ia transcorrer inteira por sobre o mesmo marasmo: o mercado de arte estava retraído depois de tantos exageros e de tantos equívocos; já havia sido decretado o "Fim da História"; as Vanguardas haviam envelhecido; as chamadas "Pós" e as "Trans" tinham perdido o rumo e estavam enredadas em suas próprias maranhas; desde 79/80, as escolas de arte entraram (e ainda não saíram) numa profunda e angustiada "crise de identidade"; as leituras semióticas de obras de arte não ensinaram nada aos artistas, e estes, atordoados, erravam ao sabor das ondas da Universidade e de professores e críticos tão desorientados quanto eles. Todos leram (ou afirmam ter lido) Obra Aberta3, mas foi tal o exagero, o exagero da ênfase, do mau gosto provinciano, da redundância do kitsch e da cópia, que, em vez da possibilidade de várias leituras, aconteceu um processo desenfreado de consumo e de rápido esgarçamento da tessitura crítica. Já desde as décadas anteriores, por toda a parte, espoucavam cursos de mestrado e doutorado em Arte, com as suas decorrentes e bastante respeitáveis safras de "Artistas-Plásticos-Professores-Doutores" mais os seus confusos, ou indecifráveis, textos e teses; Pierre Francastel4 havia apontado essa "espécie perigosa de homens: os artistas-escritores e a sua produção semiliterária". E ainda hoje, em umas escolas de arte, professores com o título de mestre, ou de doutor, ensinam a seus contentes alunos de último ano, como desenhar com o lado esquerdo do cérebro, ou como pintar à maneira dos cubistas, ou dos futuristas, ou como fazer móbiles com papel artesanal, ou...

Mas, por cima e além de tudo isso, ainda há uns poucos alunos que estão estudando e procurando fontes originais: estão lendo Ortega y Gasset5, por exemplo, ou Pareyson6, num trabalho quase como uma saudável arqueologia da origem das discussões mais recentes e lúcidas sobre Arte, e de seus extensos e intrincados desdobramentos, agora em artigos como os de Mary Rose Beaumont7 sobre a escultura contemporânea internacional, ou ensaios de Rosalind Krauss8, também sobre escultura, ou o que a palavra "escultura", durante as quatro ou cinco últimas décadas pôde abarcar, ou significar. Parece pouco, mas tem sido este pequeno grupo de artistas, ainda estudantes, que em seu esforço solitário, realizou um excelente e exemplar atelier de arte (espaço aberto aos seus colegas de escola e às pessoas interessadas e curiosas) e que agora está lançando o primeiro número deste necessário jornaleco: outro espaço que urge ser ocupado e também ocupar os espaços baldios, aqueles espaços inexplicavelmente devolutos, os espaços esquecidos pelos nossos eruditos, pelos nossos críticos e às vezes pelos professores que se distraem, ou que, enfastiados, ou cansados, não querem, ou não podem alcançar.

Alfredo Braga

setembro de 1997


NOTAS:

1 Este texto foi encomendado para o editorial do número de lançamento do jornal A FONTE que, naturalmente, como tantos outros, não sobreviveu em sua forma original de folheto.

2 "O prólogo, na triste maioria dos casos, confina com a oratória de sobremesa ou com os panegíricos fúnebres e abunda em hipérboles irresponsáveis, que a leitura incrédula aceita como convenções do gênero." Jorge Luis Borges, in Prólogos com um prólogo dos Prólogos, tradução de Ivan Junqueira, Editora Rocco, Rio de Janeiro, 1985.

3 Eco, Umberto, Obra Aberta, Editora Perspectiva, São Paulo.

4 Francastel, Pierre, A Realidade Figurativa, Editora Perspectiva, São Paulo.

5 Ortega y Gasset, José, A Desumanização da Arte, Cortez Editora, São Paulo.

6 Pareyson, Luigi, Os Problemas da Estética, Martins Fontes, São Paulo.

7 Beaumont, Mary Rose, Tópico que Ressalta e A Escultura do Pluralismo, in Art & Design.

8 Por exemplo: Sculpture in the Expanded Field, Rosalind Krauss, tradução de Elizabeth Baez, in Gávea.

 


Data: 08/05/2001 18:54

De: Julio Plaza

Assunto: A FONTE

Caro Alfredo, achei maravilhoso o seu Editorial. Pior que "Artista-doutor" é Doutor-artista ou artista-arpista. É isso aí, me faz lembrar o meu dicionário (dos setenta) sobre o tema das "Altes Prásticas". Só para citar alguns dos mais conhecidos; "Arte-vida? Arte é verba"; "Artistas plásticos Artistas elásticos"; "Arte é um bem que faz mal"; "Galeria Galeria Alegria Alergia"; "Plastagem: uso eclético da imagem"; Artista-arpista à vista" ou: "Cítricos para Críticos". Ou este, quando a máquina não estava na moda: "Máquina: bicho papão dos artistas".
É isso, Abracos
jp

 

 

 

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