Sobre a Exposição de Marcelo Pires

Museu Guido Viaro

julho/agosto de 1997

 

Mais por obrigação profissional, fui à vernissage de Marcelo Pires na Casa João Turim: o artista era terceiranista do Curso Superior de Escultura, na Escola de Música e Belas Artes do Paraná. A caminho da exposição lá ia pensando: Seria mais outra mostra de algum trabalho de segunda ou mesmo de terceira mão de algum ingênuo estudante de arte? algum outro anacrônico exemplar desses filhos perdidos da Transvanguarda, ou deslumbrado restolho da Geração 80, ou um desses inflados neo expressionistas? Não foi assim: O trabalho de Marcelo Pires, as suas pedras de basalto perfuradas e traspassadas por barras de aço, num desenho limpo e muito bem executado, remeteram-me imediatamente a um comentário de John Walker* sobre o ensaio de Harold Rosenberg, Tempo de Museu, quando este se referia à pulcritude imaculada da abstração póspictórica e da Minimal Art, como uma "estética da limpeza", o que exemplificava os valores de higiene e segurança da classe média.

Naquela altura não lhe apresentei nenhum comentário, pois me pareceu que era mais um desses artistas preocupados com o bom gosto e facilidade de discurso já digerido, do que propriamente com Arte. Mas neste ano e meio de convívio com Marcelo Pires, e com o seu trabalho, tanto na Escola como em seu atelier, compreendi, com alegria e admiração, que naquela tarde havia me enganado duas vezes: Eu não estava diante de um imitador de segunda categoria, daqueles que reduzem qualquer estilo a uma técnica maneirista, nem de um aproveitador de facilidades ocasionais; Marcelo Pires é um escultor, é um artista que não está preso a pequenas conveniências, ao contrário: desde então o tenho visto nas mais diversas experimentações, não se furtando ao risco do fracasso de um exercício mal sucedido, sempre em busca, sempre inquieto, com uma capacidade de trabalho e concentração que só iremos encontrar naquelas pessoas arrebatadas por um grande sonho, por uma idéia maior, e no caso deste jovem artista, pela Arte.

Prefiro que algum crítico culto e erudito depois o localize em algum estilo, em algum movimento; mas a sua escultura Memória corre pela mesma vereda de um Brancusi (ou de um Donald Judd, com os seus límpidos blocos, naquela rigorosa verticalidade a que preferiu intitular Untitled) em outros trabalhos de Marcelo Pires, as límpidas resmas de papel nos mostram as suas seqüenciais e suaves curvas e dialogam serenamente com Ian Burn, em seu Xerox Book; Sol LeWitt e Richard Serra também têm alguma culpa; e também outros, mais jovens.

O diálogo continua.

Alfredo Braga

 


*Walker, John A., El Arte Despues Del Pop, Editorial Labor, S.A., Barcelona, 1975, p. 35.

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