A COLAGEM SEM COLA

 

 

Se existem princípios na colagem, um deles é o de justapor contrários; se a imagem é uma máquina de costura inútil confronta-la com um pedaço de tecido, melhor colocar junto dela um guarda-chuva, numa mesa de dissecação.

Nos quadros de Sérgio Niculitcheff formam-se colagens: um escafandro bóia/navega entre as ondas, na superfície do mar. Uma diferença da montagem tradicional, a de Max Ernest, por exemplo: Sérgio não vai buscar no já-feito os elementos que se comporão no quadro, e nele se comportarão. Esses elementos preexistem em seu corpo, em seu cérebro. Se no quadro uma concha com os sons do mar se abriga numa roda dentada, as duas não vieram de fora, já moravam juntas na alma, nos olhos, na paleta, nas cores, nos pincéis, nas mãos.

Ao se juntarem, novamente numa tela, esses elementos não tem um significado, eles não querem dizer, eles estão lá. Ou melhor, seu significado é apenas a nível plástico, formal, material.

Se você notar que alguns elementos se repetem e compõem um repertório – água, fogo, casas, árvores, etc... – saiba que Sérgio Niculitcheff não se preocupa com o que eles querem dizer, com a mensagem. Intencionalmente não querem dizer nada; o que os amarra é o conteúdo técnico, que é muito bom, o que é muito bom.

 

Valêncio Xavier

Curitiba, 1985

 

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